• Pedro Ferrão

Economia criativa e a nova Sociedade em rede

Atualizado: 14 de Jan de 2020


Aristogiton Moura

Resumo executivo

O fenômeno da urbanização mundial define os marcos da crescente problemática enfrentada pelos governos e pela sociedade, os quais se deparam como aumento da importância das cidades no cenário mundial em detrimento dos demais arranjos institucionais. Esta situação está aumentando o caos social, gerado pela baixa capacidade de governo do modelo tradicional de governança pública e pelo conflito ideológico resultante da nova percepção da sociedade sobre os benefícios e custos do atual modelo vigente. Isso tem levado ao enfraquecimento do modelo de governabilidade tradicional perante os cidadãos conectados e empoderados pela tecnologia em um contexto de surgimento das cidades como palco da nova governança mundial.Para entender esse novo momento é necessário um novo vocabulário que contemple os conceitos para explicar esta nova realidade e também para desenvolver as novas práticas para gerir e participar do jogo social com efetividade. A filosofia da linguagem é um dos recursos críticos para comunicar e explicar esses novos mundos, bem como explicar as cidades como organismos vivos. Essas estão fundamentadas na teoria da evolução que permite entendê-las e “curá-las” dos problemas gerados pela contradição entre o modelo de organização tradicional industrial e os benefícios trazidos pela revolução pós-industrial. Neste contexto entra a economia criativa como elemento de liga para a nova cidade e a nova cidadania, apoiada pela internet e pelas redes sociais, tidas como elementos críticos para a nova realidade política e social de uma sociedade cada vez mais conectada. Destaque para a internet como uma ponte entres mundos divergentes e convergentes com a realidade cotidiana, bem como para a economia criativa - objeto deste artigo e elemento transformador da realidade social. O que é economia criativa, qual a sua história e o que leva ao conceito inovador de governo inteligente associado à economia criativa como transição para um mundo mais equilibrado e sustentável.


Introdução

Para o desenvolvimento deste artigo é importante utilizar uma definição sobre o que é a Economia Criativa, dado que esta ainda é um campo novo de experimentação na atuação social, política e mercadológica, e ainda há muita confusão e explicações conflitivas sobre o que é e qual sua área de estudo e abrangência.

Nesta nota técnica citamos uma definição dada pelo SEBRAE - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas(1), que nos pareceu mais atual e completa. Segundo esse serviço, Economia Criativa é o conjunto de negócios baseados no capital intelectual e cultural e na criatividade que gera valor econômico. A indústria criativa estimula a geração de empregos e renda, enquanto promove a diversidade cultural e o desenvolvimento humano. Esta abrange os ciclos de criação, produção e distribuição de bens e serviços que usam criatividade, cultura e capital intelectual como insumos primários. Atua nas seguintes áreas: Arquitetura; Artes visuais; Cinema; Televisão; Publicidade e outras mídias; Design; Games; Editoração; Música; Moda e Comunicação. Estes segmentos criativos podem ser alinhados de acordo com suas afinidades setoriais em quatro grandes áreas: Consumo (design, arquitetura, moda e publicidade); Mídias (editorial e audiovisual); Cultura (patrimônio e artes, música, artes cênicas e expressões culturais) e Tecnologia (P&D, biotecnologia e TIC).

Essa economia é produtora e produto da nova realidade vivida pelas cidades. Como a nova economia está cada vez mais vinculada aos avanços da internet, a velocidade de concepção, desenho, produção, distribuição e consumo também estão seguindo esta velocidade, fazendo com que os modelos clássicos percam espaço para os novos entrantes. Há, segundo afirma Moisés Naim (2014), em seu livro “O Fim do Poder”, uma profunda mudança na sociedade devido a mudança no padrão de poder que estrutura o mundo ocidental, tal como o conhecemos. Esta mudança vai do poder concentrado e burocrático do governo e das grandes organizações privadas para os “micropoderes” exercido por aqueles que não têm acesso ao poder concentrado, mas têm poder suficiente para impedir as iniciativas de todos os demais. Nesta situação, ninguém tem poder para impor uma linha de atuação. É um mundo no qual as decisões não são tomadas, ou são tomadas tarde demais ou se diluem ao ponto da ineficácia. Isto explica muito o momento complexo e repleto de crise pelo qual passa a sociedade e o porquê do empoderamento dos consumidores, cidadãos, organizações sociais, startups e das cidades.

Outro ponto importante de introduzir é a nova realidade inconteste, que pode ser vista na edição de 2014 do relatório “Perspectivas da Urbanização Mundial” (World Urbanization Prospects) produzida pela Divisão das Nações Unidas para a População do Departamento dos Assuntos Econômicos e Sociais (DESA), de que 54% da população mundial já vivem em áreas urbanas, uma proporção que se espera aumentar para 66% em 2050.

A urbanização, como fenômeno social objeto de estudo e prática de planejamento, é um fato recente. Remonta à Revolução Industrial na necessidade de se adequar os assentamentos humanos à lógica da produção. Nossas cidades hoje ainda refletem o modelo de mera organização e gestão dos espaços urbanos em detrimento da ecologia urbana. A grande migração campo – cidade observada neste período tem feito com que a ocupação das cidades seja uma fonte de intermináveis problemas para a gestão pública, como citam Barbosa e Nascimento Jr. em “Paisagem, Ecologia Urbana e Planejamento Ambiental”: “As pessoas saem do campo em busca de melhores condições econômicas e sociais, gerando conflitos, expulsões, violência, destruição ambiental e miséria. Os emigrantes, ao chegarem às cidades, acentuam a proliferação de ambientes degradados em situações extremamente precárias, restando-lhes apenas os espaços de formação ilegal, como as favelas ou as áreas de proteção ambiental e os mananciais de preservação permanente.Ocupam também espaços públicos como pontes e viadutos, agravando, ainda mais, a sua condição subumana”.

Vivemos no Brasil um verdadeiro caos em termos de gestão de cidades. Esta situação só se agrava, pois, ademais da baixa capacidade dos políticos e das máquinas públicas, a brecha trazida pela revolução da tecnologia da informação e comunicação faz com que tenhamos uma gestão pública aparelhada para o século XX para enfrentar problemas de uma cidadania que já vive a realidade do século XXI. Todas as cidades enfrentam este problema, em maior ou menor escala. Embora haja uma busca incessante por meios de modernização da máquina pública, essas são de forma e não de conteúdo. Não há nenhuma solução que escape da armadilha de “tecnificar” a administração com a aquisição de equipamentos e sistemas, descolados da demanda real das estruturas mentais e práticas burocráticas ultrapassadas.

No entanto, nestas mesmas cidades já brota a semente de uma nova organização política, econômica, social e ambiental mais humanizada. Estamos migrando de um modelo de cidade que era um simples nó numa rede tecno-burocrática dentro do modelo estado-nação, para ser o espaço de vivência e convivência do ser humano com governabilidade e responsabilidade compartilhadas.

Antoni Gutierrez-Rubi, em seu livro “SmartcitiZens - Cidades numa escala humana - Novas coordenadas, novos mapas - O papel das cidades na governabilidade - A cidade dos cidadãos”, trata de forma brilhante a transformação que as cidades vêm sofrendo. Segundo ele, as cidades serão protagonistas da agenda política econômica e social nos próximos anos. A sua importância tem crescido no mesmo ritmo que o seu dinamismo econômico e o seu papel nas mudanças políticas e sociais que marcaram este início do século. Também os principais desafios que a humanidade deve enfrentar, que vão desde o aumento exorbitante da desigualdade até o imprevisível comportamento do meio ambiente como partes da realidade urbana. É nos grandes núcleos urbanos onde são mais perceptíveis seus efeitos e de onde devem emergir as soluções.

Este novo cenário levanta muitas dúvidas. É possível imaginar um segundo nível de governo global baseado no novo poder das cidades? Este tem capacidade para levar os benefícios de seu desenvolvimento econômico para todas as camadas da população? Ele será a ponta de lança da inovação social e democrática? Que papel as soluções tecnológicas que permitem novos mecanismos de participação vão desempenhar?

Segundo Gutierrez-Rubi, esta última questão é relevante. Pensar a cidade sem a colaboração de seus habitantes conectados não é mais uma opção. A intervenção dos cidadãos na gestão e no planejamento tornou-se um aspecto diferencial do mundo local e a sua resposta à crise política. Por isso, hoje podemos e devemos falar de cidadania inteligente. Apesar de ainda existirem muitas incógnitas sobre como vai acabar definido este novo cenário de colaboração e coprodução, há também a convicção de que este é o elemento que legitima e melhora o governo da cidade.


As cidades, os cidadãos e a nova configuração dada pelo avanço da internet e as redes sociais

Pelos argumentos aqui apresentados, o cenário prospectivo mais possível e plausível para a espécie humana nesses tempos tecnológicos é aquele em que, vivendo em cidades, nos relacionaremos com o mundo sem a intermediação das tradicionais estruturas burocráticas regionais e nacionais. Essas terão que ser repensadas e reinventadas para serem úteis nesses novos tempos tecnológicos.

Esta nota técnica procura demonstrar que não podemos entender as cidades sem enxergá-las como organismos vivos onde vivem em simbiose os humanos com a infraestrutura tecnológica, a cultura, a política e o ambiente. Tudo isso num mundo humano que é construído a partir de jogos de linguagem. Como definido por Wittsgenstein, a linguagem é a ferramenta que conduz a arquitetura que se dá na relação homem - mundo. Para ele o mundo humano é uma construção lingüística, na qual a linguagem é a expressão sígnica da atividade humana, manifesta na sua máxima: os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo, ou seja, o mundo do homem é do tamanho do seu vocabulário.

Construímos nossos mundos a partir da interação com os outros, suportada pela linguagem. Então toda construção humana (na qual se encontram as cidades) é produto da interação entre humanos, cuja linguagem cria seu mundo. Com esta referência em mente pretendemos aqui apresentar os conceitos para se entender o que são as cidades e os jogos de linguagem que a mantêm vivas e atuais.


A biologia das cidades

Nesta abordagem, entendemos as cidades como organismos vivos. Elas se estruturam e organizam para que seus ocupantes biológicos tenham as melhores condições de sobrevivência, crescimento e equilíbrio. Nesse contexto, tanto o crescimento de sua importância no mundo atual, seu vigor e sua degradação (que encontramos nos seus espaços tradicionais, como centros e determinados bairros) são reflexos da vitalidade e da degenerescência desses organismos. Para este artigo também nos apoiaremos em uma teoria evolucionista para explicar os fenômenos que hoje acontecem nas cidades e com isso construir uma possibilidade de intervenção, tal qual um médico intervém ao reabilitar um organismo vivo.

A fundamentação para a abordagem deste tópico foi desenvolvida pelo professor Frederico Barreto, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília. Baseando-se em Peter Saunders, em seu livro “Social Theory and the Urban Question”,e em outros autores que trataram deste tema, as cidades são consideradas como organismos vivos. Juntamente com Robert Park e colegas da Universidade de Chicago, eles elaboraram e fundamentaram uma revolucionária perspectiva ecológica do crescimento das cidades, reconhecida por Leonard Reissman como "a melhor aproximação de uma teoria sistemática de cidade".

A ideia base é fundada na tese de Darwin que estabelece a noção de uma "rede da vida” (web of life), através da qual todos os organismos se relacionam com todos os outros e, nesse relacionamento, têm enlaces de interdependência ou de simbiose. Segundo Darwin, esse relacionamento conduz a um equilíbrio natural que é resultado da luta de "dentes e garras" (teeth and claw) pela sobrevivência, que acabava por alterar o tamanho das populações das diferentes espécies que conviviam entre si. A competição pelos recursos básicos da vida, desta maneira, resulta na adaptação das diferentes espécies a cada uma das demais e ao seu ambiente comum. A evolução de um sistema ecológico relativamente equilibrado baseava-se na “cooperação competitiva” entre organismos diferenciados e especializados. Evidentemente, tratava-se de um processo inteiramente natural e espontâneo.

Neste sentido, Park, no seu livro “Human Communities: The City and Human Ecology” propôs que esse mesmo processo operava na comunidade humana: "a competição opera na comunidade humana do mesmo modo que na comunidade de plantas e animais, criando uma forma de equilíbrio, mantendo e recriando esse equilíbrio, especialmente quando ocorre o advento de uma nova espécie intrusiva, de um novo fator que pressiona e desequilibra o sistema, desde o interior ou desde o exterior, afetando o curso normal anterior da vida, perturbando esse equilíbrio".

A competição entre os indivíduos, como Park argumentou, é que cria as relações de cooperação competitiva através da diferenciação de funções (pela divisão do trabalho), forçando um ordenamento da distribuição espacial dessas funções naquelas áreas em que acabam por se ajustar melhor, áreas físicas onde eventualmente apresentam seu melhor desempenho e onde passam a exercer uma forma de domínio equilibrado - ou seja, um domínio cujo desequilíbrio torna-se mais difícil, menos provável. Sua análise, em outras palavras, é tanto funcional quanto espacial: "a questão principal aqui é que a comunidade concebida desta forma é simultaneamente uma unidade territorial e funcional".

Para Barreto, na comunidade humana, de forma análoga, a indústria e comércio são dominantes, pois essas duas grandes áreas de atividades podem superar praticamente todos os outros competidores por localizações estratégicas da cidade - aquelas localizações que, num dado momento da evolução urbana, lhes sejam mais vantajosos, lhes permitam os melhores desempenhos.

Ao abordar este tema e sustentado pelos autores citados, Barreto nos traz uma perspectiva que fundamenta as bases da presente nota. Pretendemos apresentar a “economia criativa” como elemento chave para uma teoria de modernização das cidades, dar sustentação teórica à transformação destas em “SmartCities” e repensar o papel que desempenham os cidadãos nos destinos e no equilíbrio político, social e econômico no mundo atual.


A Economia Criativa e sua história

Charles Landry, no pref