• Pedro Ferrão

O MUNDO, O TRABALHO E O SINDICALISMO EM TEMPOS DE SOCIEDADE HIPERCONECTADA VIA INTERNET

Autor: Aristogiton Moura

Nota para a 8ª Carta de Conjuntura da USCS


Resumo Executivo

A presente nota tem como foco as causas do desmonte das instituições tradicionais da sociedade, responsáveis pelo equilíbrio social e político, como são os sindicatos. Também aborda o impacto e as consequências originadas pela transição da forma de se comunicar e atuar das organizações e das pessoas do mundo físico para o virtual. O campo de interesse específico nesta é o trabalhismo, sua debilidade frente à nova realidade e os caminhos que tem que seguir para continuar ativo e necessário para o mundo do trabalho e do emprego. Destaca as teorias, métodos e ferramentas que esse tem que incorporar para continuar fazendo a necessária mediação entre o capital e o trabalho no mundo da indústria 4.0 e das cooperativas de plataformas.


A internet e a economia digital

Para entender o fenômeno da desconstrução do mundo do trabalho pela irrupção das novas tecnologias, principalmente as de comunicação e informação, recorremos ao pensamento do filósofo francês Pierre Lévy1, pesquisador das tecnologias da inteligência que investiga as interações entre informação e sociedade. Segundo ele, as potencialidades das interações coletivas trazidas pela internet mudaram nossa concepção de realidade. Hoje, o virtual é uma potência do real, e vice-versa, “nos mostrando que a rede expandiu questões que sempre enobreceram o desenvolvimento humano como também propagaram os nossos piores conflitos”.

Esta nova realidade afetou enormemente a forma como vivemos, trabalhamos, nos relacionamos e organizamos as referências com as quais balizamos, até então, a nossa posição no mundo. Isto explica a enorme dificuldade das pessoas e das organizações para transitarem nesse novo tempo. Entender o impacto causado pela internet, que está transformando aceleradamente o nosso mundo, bem como seu caráter totalizante, é condição essencial para atuar nas esferas pública, política, profissional ou pessoal.

Um dos aspectos mais afetados por essa transição é o mundo do trabalho, com mudanças significativas nas relações trabalhistas e no nível de desemprego. As notícias não são boas, o que conhecemos como emprego no mundo atual está em transição. No mercado privado, o primeiro a sofrer os impactos desta onda, os números são devastadores, tanto na quantidade quanto na qualidade do emprego. Segundo o informe The Future of Jobs2, publicado em 2016 pelo Fórum Econômico Mundial, cerca de 7 milhões de empregos devem desaparecer até 2021,principalmente em escritórios, fábricas e produção. Em contrapartida, serão criadas apenas cerca de 2 milhões de vagas relacionadas com Inteligência Artificial, robótica, nanotecnologia e impressão 3D. Ou seja, um contingente mais de 5 milhões de empregados, especialmente os com melhor formação, engrossarão as estatísticas de desempregados pelas revoluções tecnológicas ou migrarão para os novos serviços trazidos pela internet.


Economia digital e o novo mundo do mercado

A economia digital, apresentada como a panaceia que resolverá os problemas do mundo do emprego on-line, não é o oásis que as cinco maiores empresas deste ecossistema— as GAFAM3 (Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft – as gigantes da web) querem vender. Os impactos já sentidos mostram um conjunto de fatores que estão estruturando esse ecossistema de uma forma perversa. Um dos principais efeitos é o fato da força de trabalho, principalmente jovens e desempregados, estar migrando para a Economia do Compartilhamento, como definido por Trebor Scholz4. Segundo ele: “aquela que é retratada como um prenúncio para a sociedade pós-trabalho – o caminho para o capitalismo ecologicamente sustentável onde o Google vencerá a própria morte e você não precisa se preocupar com nada. Com o slogan O que é meu é seu, o cavalo de Tróia da economia do compartilhamento nos traz formas jurássicas de trabalho enquanto desencadeia uma máquina antissindical colossal, passando por cima de trabalhadores, especialmente sobre os mais velhos”.

A economia digital, que deveria representar um mundo de liberdade sem limites para a vida, trabalho e escolhas individuais, no qual a internet propiciaria as oportunidades necessárias para eliminar o complexo sistema de intermediações do mundo off-line, não é tão simples assim. Em primeiro lugar, os serviços oferecidos por essas empresas virtuais, das quais dependemos para viver neste contexto, como comer (ifood), trabalhar (linkedin) ter mobilidade (uber), que estão agora acessíveis em poucos toques, na tela do celular, não são isentos e nem tampouco grátis, como fazem supor. O fato de elas estarem no portfólio das que receberam investimentos da GAFAM, põe em xeque a isenção da economia digital e pode explicar o fenômeno da elevada concentração da riqueza e disparidade social no mundo atual. Segundo John Duda5:

a Internet certamente não está ajudando. Ela é impulsionada pelo pensamento de curto prazo e lucros corporativos; ela é direcionada pela indústria de capital de risco e está contribuindo para a concentração de riqueza em poucas mãos”.

Economia digital e o novo mundo político

Como no mundo privado, esse processo está descontruindo as formas organizativas e de relacionamento que vinham mantendo o que entendíamos por mundo político real (off-line) e sustentou o status quo político que a geração que está no poder conheceu, se formou e ainda transita. As instituições mais atingidas pela onda digital são aquelas que são mais caras à democracia – proteção, equilíbrio social e a liberdade – representadas pelos governos, partidos políticos e sindicatos. Estas foram moldadas no mundo sólido6 em que a burocracia e os processos eram fatores críticos para a atuação nos desenvolvimentos social, econômico e sustentável, bem como na defesa e proteção dos interesses e direitos da sociedade e dos trabalhadores. Todas essas instituições estão sendo tragadas pela onda digital advinda da revolução no campo das tecnologias da comunicação e informação, impulsionada pela internet e pelas redes sociais.

A burocracia tradicional7 que teve um papel significativo na estruturação da sociedade, do governo, dos sindicatos e dos partidos até o século XX, está perdendo sua importância pelas mesmas razões que contribuíram para o seu sucesso. A máquina burocrática, formada numa sociedade industrial, principalmente a partir da Primeira e da Segunda Revolução Industrial, foi concebida sob o manto de uma teoria autoritária, baseada em métodos determinísticos e por tecnocratas distantes da política. Os desafios que enfrentava eram tratados com abordagens unidimensionais, métodos e processos que já não respondem à incerteza e à complexidade dos problemas sociais atuais, fazendo com que governo, sindicatos e a política sofram de cegueira situacional, condição que os impede de enxergar uma realidade para a qual não têm conceitos e nem vocabulário para explicá-la e nela atuar.

Essa crise estrutural faz com que essas instituições, responsáveis pelo equilíbrio da sociedade, continuem presas a um passado do qual não conseguem escapar e que se mostra aparentemente imutável no tempo presente. Submetidas a um modelo de governança ideológico ultrapassado, não conseguem desenvolver qualquer processo político renovador. Vivemos sob o desamparo de instituições ultrapassadas, com agendas desfocadas e atreladas a interesses privados e de grupos de pressão, que não conseguem estabelecer uma agenda renovada e conectada com a sociedade.

Essa realidade mostra os indicadores mais significativos do hiato entre os mundos sólido e líquido: um país sem direcionalidade estratégica, uma sociedade desarticulada e politicamente cindida, uma sobre-exposição da falência do estado, traduzida em problemas como a violência urbana descontrolada, o desemprego elevado, o crescimento econômico insuficiente, a acumulação de renda e de poder numa elite descompromissada com a democracia e um “sem rumo e sem esperança” que nos entorpece e esvazia a nossa capacidade de reagir.

Analisando com acurácia o impacto dessa realidade nas instituições, vemos que esse não é um problema provocado só pela revolução digital, pois os seus sinais de desgaste podem ser encontrados em tempos pré-internet. Carlos Matus8 já apontava, na década de 1990, as possíveis causas9, para o descrédito da população no sistema, como um todo, que deveria representá-la:

A política está desfocada dos problemas da cidadania. Ela gera os seus próprios problemas e os políticos se dedicam a resolver os problemas da política e não das pessoas.

Os dirigentes políticos creem que basta a improvisação, a experiência, o bom senso e sua formação acadêmica para governar. Não basta um bom médico para ser um bom ministro da saúde e um bom economista não é necessariamente um bom ministro da fazenda. Ambos, por sua formação departamentalizada, tem um elevado nível de I2 (ignorância ao quadrado = não sabem que não sabem), desconhecem que para governar têm de conhecer Ciências e Técnicas de Governo.

Nos nossos países, domina um sistema de baixa responsabilidade – ninguém cobra contas por desempenho a ninguém – portanto tanto faz, na política, fazer bem, fazer mal ou até mesmo não fazer. Isto facilita que o poder esteja contaminado pela mediocridade, pela falta de ética e principalmente abre as portas à corrupção. Nesse ponto de vista, a corrupção não é um problema em si, mas um subproduto da mediocridade política.

Os partidos políticos, tal como estão, são meros clubes eleitorais. Estão estruturados apenas para ganhar eleições e manter-se no jogo político eleitoral, afora isso não participam do enfrentamento dos problemas sociais que afetam a cidadania. Suas estruturas estão constituídas para ganhar eleições. Eles não participam e nem alimentam agendas políticas estruturantes, pois não possuem centros de formação para os seus dirigentes, não se preocupam com a formação de seus líderes políticos e não têm estruturas de inteligência para pensar no longo prazo.

São sistemas ultracentralizados, muito distantes da cidadania e de seus problemas. Esses sistemas cegam os dirigentes tradicionais, fazendo com que suas agendas só tenham rotinas, emergências, administração e crises. Os temas estratégicos para eles são apenas aqueles relacionados à manutenção do poder pelo poder. Existe nisso um grande problema de democratização que passa pela descentralização profunda do sistema político, que deveria ser abordado com urgência.

Tal situação tem provocado uma crise no nível macro político, contexto em que a política, o governo e os sindicatos atuam para a dinâmica e o equilíbrio social, intitulada por Matus de baixa capacidade de governo. Crise que se intensifica em contraste com o avanço impressionante da tecnologia. A complexidade e intensidade dos problemas atuais estão cada vez mais distantes destas Instituições. A democracia, nos tempos modernos, ganhou terreno frente ao autoritarismo. Entretanto, a democracia vem se debilitando pela sua crescente inefetividade. Isto provoca a desilusão do cidadão comum que se afasta da Política (com P maiúsculo) e esta perde espaço para a política (com p minúsculo). O governo e as novas tecnologias estão de costas um para o outro. A democracia perde seu atrativo, sem ter, até o momento, competidores viáveis. Seus defensores não sabem defendê-la; a democracia sobrevive ante o vazio de outras opções.


Os sindicatos, o problema da legitimidade e da capacidade de atuação no contexto trabalhista brasileiro


Os Sindicatos sofrem do mesmo mal que afeta o Governo e os Partidos. Oriundos da mesma matriz que os estruturou e deu sentido, padecem das mesmas deficiências e incapacidades, e não estão conseguindo fazer a transição de suas estruturas dos tempos sólidos para os tempos líquidos, como bem definiu Baumann10.

Esta situação se deve a fatores estruturais e conjunturais. Em relação aos estruturais, Trebor Scholz, já referido, aponta que a internet migrou a economia tradicional de oferta para a economia moderna sob demanda, a economia do compartilhamento. Ele fala de uma força global e maciça em favor de “construtores de pontes digitais” que se inserem entre os que oferecem serviços e os que buscam tais serviços, imbricando assim processos extrativos em interações sociais.

Essa nova condição redesenha tanto a forma de produzir, distribuir e consumir, quanto a forma de governar e representar. Os governos, partidos e sindicatos vivem no mundo off-line, enquanto a sociedade, os eleitores e os sindicalizados já vivem no on-line. A causa da falência dos primeiros é a incompatibilidade dos sistemas e suas práticas para atender às demandas e necessidades destes últimos.

Em relação aos fatores conjunturais Carlos Fara11, analisando a situação dos partidos argentinos, elenca três pontos críticos que podem explicara raiz dessa problemática. Em primeiro lugar aponta a fragmentação da base social dos partidos. Segundo ele, a estrutura ocupacional do mundo está mudando em grande velocidade para postos de serviço individuais, instáveis ​​e voláteis. Quando o mundo do trabalho muda, todas as suas fundações superestruturais sofrem.

Em segundo está a fragmentação do sindicalismo; como resultado disto, a representação sindical passa pelo mesmo processo, sendo mais compartimentada do que nunca. Carlos Fara afirma que a espinha dorsal do movimento sindical tradicional está quebrada e talvez não haja como recompô-la. E finalmente destaca a